Blog de viagens escrito por Luísa e Marcelo Colombo. Roteiros de viagem, planejamento e notícias para inspirar e facilitar a viagem dos seus sonhos. 

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O que precisamos saber sobre viagem e acessibilidade

2 Nov 2016

Aqui em casa o tema é (quase) sempre o mesmo e por isso mesmo virou blog. Mas tem muitas coisas que ainda temos vontade de descobrir e uma delas foi sobre as especificidades da pessoa com deficiência durante uma viagem. 

Para nos ajudar com esse tema, convidamos o Renan Prestes, antropólogo, atleta de rugby em cadeira de rodas, viajante assíduo e cadeirante há 12 anos. Dentre suas viagens, ele já explorou a Índia, México, República Tcheca, e mais recentemente, EUA, onde acabou de fazer uma roadtrip pela costa da Califórnia. Ele, que é uma pessoa muito querida nossa, topou na hora o nosso bate-papo para compartilhar sua história e aconselhamento para outras pessoas que estão em uma situação semelhante e se perguntando como fazer as viagens acontecerem. 

 

Então, vem cá conhecer o Renan e as dicas de viagem dele:

 

DIZ: Às vezes, a gente não tem muita ideia, mas quais são os desafios da pessoa com deficiência em um voo longo, de mais de 8 horas?

Renan: Pessoalmente, eu não acho avião um meio de transporte muito agradável, até porque em geral voo de classe econômica. Mas realmente um voo longo exige do cadeirante alguma precaução para que sua viagem não se torne uma experiência ruim. Talvez, mais importante que narrar minhas experiências pessoais, seja elencar a principal dica: Você não precisa viajar sozinho, a menos que queira. Segundo resolução da Agência Nacional de Aviação Civil, é obrigação das empresas aéreas fornecer todas as condições necessárias para que as pessoas com deficiência possam voar sem transtornos. Caso esta pessoa tenha alguma necessidade específica que a empresa não pode suprir com seus serviços, o passageiro pode indicar um acompanhante para ajudá-la durante o voo, e esse acompanhante pagará sua tarifa com um desconto de no mínimo 80%. É um procedimento relativamente simples e no geral as empresas dispõem de um departamento que cuida desse assunto, bem como uma área em seu site com maiores informações. O protocolo muda um pouco de acordo com a companhia aérea e vale tanto para voos nacionais e internacionais. Então é saber das necessidades do seu corpo e exigir o cumprimento da lei pela companhia aérea!

 

 

DIZ: Nesse caso, tem algum assento melhor para o cadeirante no avião? Uma dica que facilite o voo ou uma coisa que deva evitar fazer?

Renan: Eu costumo fazer o check-in o quanto antes, peço para ser alocado nas fileiras da frente que costumam ser mais espaçosas e de fácil acesso, que é um direito que nem sempre é respeitado. Vou deixar o link para a guia de direitos de acessibilidade do passageiro feito pela ANAC, porque é importante o passageiro estar documentado. Eu mesmo já precisei mostrar documentos e até acionar o escritório da agência quando uma companhia se negou a oferecer um serviço obrigatório.

DIZ: Como funcionam os processos de check-in, embarque e desembarque com a

cadeira de rodas?

Renan: As companhias aéreas tem um espaço prioritário nos aeroportos maiores, até um local específico para descanso que no geral é apenas uma sala. O cadeirante deve se dirigir a este espaço e o embarque no avião varia de acordo com a aeronave e estrutura física do aeroporto. É prudente que a pessoa se apresente no embarque

assim que este estiver aberto, uns 50 minutos antes do voo. Pessoalmente prefiro ir

com minha cadeira até a porta da aeronave, pois assim ela vai no porão, um depósito mais seguro do que despachar no Check-in. É também importante saber que a cadeira não pode ser computada como bagagem e portanto, não pode ser taxada. Caso a pessoa com deficiência esteja levando outros objetos ortopédicos indispensáveis além das cadeiras de uso essencial (banho ou de uso no dia a dia), a companhia pode computá-las como excesso de bagagem, porém devem considerar um desconto de 80%.

 

DIZ: Se for cadeira de rodas motorizadas, como funciona?

Renan: Cadeiras motorizadas tem uma especificidade, determinados tipos de bateria são perigosas e não podem voar, é importante contatar a companhia aérea e verificar

essa questão com minúcia.

 

DIZ: E na hora do desembarque, é tranquilo?

Renan: O chato do desembarque é que tem boas chances de você ter que esperar o

desembarque de todos os passageiros. Então cuidados com escalas ou conexões muito apertadas, pois as trocas de aeronaves são demoradas.

 

DIZ: Você acha que há desrespeito das companhias aéreas com as pessoas com deficiência? Ou eles são colaborativos?

Renan: No geral, as companhias aéreas são ruins. Só para ilustrar: Ano passado uma companhia área perdeu as rodas da minha cadeira esportiva quando estava a caminho de um campeonato. Também não é raro ter a cadeira quebrada. Não é um consolo, mas a justiça tem sido bastante rigorosa com as companhias aéreas. Hoje, toda vez que tenho algum transtorno que não foi bem resolvido, recorro à justiça.

 

DIZ: Você acha que os destinos são mais limitados para quem é cadeirante?

Renan: Acho que essa resposta está conectada com o quanto o cadeirante em questão está disposto a experimentar. Claro que é fundamental que pensemos em espaços aonde todos possam circular com plena liberdade, politicamente não há outra posição. No entanto, não posso negar que ter que me enfiar com com minha cadeira de rodas em um Tuk-Tuk para poder me locomover na Índia foi uma experiência interessante.

 

DIZ: E funcionou bem esse passeio no Tuk-Tuk?

Renan: O tuk-tuk eu recomendo se a pessoa gostar de aventura e não se importar em ficar perdido em uma cidade completamente diferente. Caso aconteça, procure um shopping ou uma grande loja... A Índia foi uma colônia inglesa, então alguém que fale inglês vai aparecer! No pior de tudo você vai conhecer os pontos turísticos, os motoristas de Tuk-Tuk ganham um vale gás toda vez que levam um turista até determinados pontos turísticos das cidades!

 

DIZ: Em questão de acessibilidade, qual foi o melhor e pior destino que você já foi?

Renan: Com certeza nos EUA elas levam acessibilidade a sério. De fato, (quase) tudo é adaptado. No entanto, não espere que as pessoas venham se oferecer para te auxiliar em alguma coisa prontamente... Não é má vontade, me parece mais uma questão cultural, pois eles partem do pressuposto que você é autossuficiente. A Índia é bastante complicada, porque nem os grandes centros são acessíveis, e ainda rola uma certa fixação por escadas!

 

DIZ: Como é o seu planejamento de viagem? Quais são os cuidados necessários

para um viajante cadeirante?

Renan: Eu procuro me prevenir. Por exemplo, os sites de reservas de hospedagem possuem filtros como “quarto adaptado” ou “banheiro adaptado”, porém antes de fechar uma reserva gasto alguns créditos no SKYPE e faço questão de ligar para o hotel e entender o que eles classificam como “acessível”. Porém, imprevistos podem acontecer, faz parte de sair de casa, independente de ser cadeirante ou não.

 

DIZ: E você tem alguma dica das perguntas que você costuma fazer? Por exemplo,

tamanho das portas dos banheiros? Ou outro truque que é bom anotar?

Renan: É muito comum no exterior banheiros onde o chuveiro é dentro de uma banheira, isso para mim é um problema. Se não consigo me comunicar com o atendente pelo telefone, falo com o supervisor e na pior das hipóteses peço uma foto do banheiro.

 

DIZ: Qual é a sua relação com aplicativos de viagens? Eles te ajudam ou atrapalham?

Renan: Ajudam. Os principais aplicativos possuem filtros que contemplam acessibilidade. Se resolveu fazer uma reserva por um aplicativo, ligue para o atendimento ao cliente e garanta que sua reserva foi feita conforme você solicitou.

 

DIZ: Você tem algum blog ou site sobre turismo adaptado para recomendar?

Renan: Sim e sim! O Wheelchair Traveling é bem específico e tem dicas preciosas para filtrar suas escolhas, sempre avaliando com precisão as possibilidades de locomoção.

 

DIZ: Qual foi a sua viagem favorita até agora?

Renan: Recentemente fiz uma viagem na qual aluguei um carro adaptado e dirigi junto com minha namorada durante 11 dias, por toda costa da Califórnia, visitando San Diego, Los Angeles, Santa Mônica, Santa Barbara, San Luís Obispo, San Francisco e Sausalito. Foi uma experiência que não imaginava até porque alugar um carro adaptado não me parecia uma possibilidade até pouco tempo. É um clichê, mas a favorita é sempre a última.

 

DIZ: Conte um mico ou perrengue de viagem.

Renan: Adquirir equipamentos ortopédicos é muito caro no Brasil, então às vezes aproveito uma viagem para comprar algo que preciso. Amigos que também são cadeirantes acabam também pedindo para trazer alguma coisa.... Bom, voltei de uma viagem de 30 horas com 4 cadeiras de rodas e 3 malas, foi um perrengue mas sempre tem alguém para dar uma força...

 

DIZ: Alguma dica para pessoas com deficiência que estão planejando a primeira viagem?

Renan: Fuçar a internet! Existem milhares de fontes de informação, inclusive algumas se dedicam ao turismo adaptado. E comece por lugares confortáveis para sua necessidade, não é sempre que o perrengue é uma experiência legal. Porém, acredite: Sempre é possível dar um jeito se tiver boa vontade envolvida!

 

 

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